21 de Dezembro de 2012
A chuva caía silenciosamente lá fora, abafada pela música em meus ouvidos. Levantei do sofá, que ainda guardava recordações de quando eu havia derrubado Coca em suas almofadas, peguei minha jaqueta preta e saí de casa.
A chuva não passava de uma fina névoa que insistia em fazer com que minhas tentativas de acender o cigarro falhassem, mesmo assim não havia ninguém na rua. Andei por mais cinco minutos para avistar uma silhueta no fino pano molhado que caía sem cessar. Alguém que eu não via há muito tempo. Eu não tinha notícias dele há vários anos e embora eu soubesse que ele havia sido preso, nunca soube o motivo, embora boatos não faltassem. Furto, roubo, porte/tráfico de drogas, até mesmo homicídio. Ele também me reconheceu através da chuva.
Com poucas palavras nós nos cumprimentamos. Decidimos tomar um café em algum bar ali perto. Não lembro o nome do bar, mas tinha um estilo rústico, com umas quatro pessoas tocando música folk com violinos e era quente e aconchegante, o máximo que precisávamos naquela noite chuvosa. A banda folk tocou uma versão instrumental de Sweet Child O’ Mine. Ele sorriu pra mim ao reconhecer a música, eu ri da ironia do universo. Tantos bares para ir e a gente está em um com quatro pessoas tocando Guns n’ Roses no violino. Minha atenção se desviou para a garçonete, uma morena com um decote que te convenceria a pedir a bebida mais cara do bar.
- O que os senhores desejam? – perguntou com a boa vontade habitual de quem gostaria de estar no shopping ao invés de servir bebidas.
- Café. Com chantilly – respondi.
- Chá. Gelado – Ele respondeu, olhando nos olhos surpresos da garçonete, que não questionou o pedido.
Depois de tomarmos as bebidas e conversarmos um pouco, nos despedimos, embora não fosse demorar muito até nos encontrarmos de novo.
Quando cheguei em casa, deitei no sofá e terminei com o sorvete que havia aberto no dia anterior. Acendi o cigarro agora que a chuva não me impediria e fiquei na internet até as onze horas, quando fui para a cama.
22 de Dezembro de 2012
Não consegui dormir. Como se alguma coisa no meu corpo me impedisse de relaxar.
Eu sempre me perguntei se você pressente quando vai morrer. Se alguma coisa em sua alma faz você ter a certeza que a sua jornada neste mundo chegou ao fim. Se alguma coisa em seu corpo desse um recado dizendo que é seu último dia aqui. E, se isso acontecesse, se eu entenderia o recado. Eu vi os números do relógio se transformarem em zero quando senti um arrepio percorrendo meu corpo.
O meu quarto era pequeno, mas grande o suficiente para caber uma cama de casal e sobrar espaço para uma escrivaninha que nada mais era do que uma prancheta com uma luminária e várias folhas rabiscadas com rascunhos de desenhos. Na parede em frente à essa prancheta haviam colados alguns desenhos finalizados e algumas fotos que eu usaria como referência para os que ainda estavam em andamento. Arranco os melhores desenhos da parede e coloco no espaço de uma mala. Enquanto faço isso escuto gritos vindos da rua. Em uma tentativa de controlar minha inexplicável angústia, acendo um cigarro.
Cruzei a sala, que era separada da cozinha por um balcão onde a louça implorava para ser lavada. Escuto um carro batendo em algo.
Abro o maior armário da cozinha. Se outra pessoa fizesse o mesmo, veria o local aonde guardo as compras, que jogo no chão como se não tivesse gastado dinheiro nelas. Porém, com um pouco mais de atenção veria que o fundo do armário apenas era uma divisória para um pequeno arsenal que eu vinha guardando para algum tipo de emergência. Os gritos lá embaixo se misturam a grunhidos inumanos. Parecia que havia chegado a hora.
Eu sempre tive fascínio por armas antigas. Treinei arco e flecha por três anos. A mala em que eu guardara meus desenhos era um case aonde estava meu arco. Minhas únicas armas de fogo eram duas colt calibre 38, com detalhes nas coronhas que as faziam parecer saídas de um filme de western. Os coldres, que eu coloco um em cada lado da cintura, tinham detalhes semelhantes ao das armas, guardadas nos coldres. Segui a tradição dos pistoleiros do velho oeste americano colocando uma bala a menos do que caberia na arma. Embora não tenha a preocupação que eles tinham com a arma atirar por acidente, como eles, colocara uma nota de dinheiro na casa vazia. Esse ato bancava um enterro digno para os antigos pistoleiros, embora eu sabia que não teria tanta sorte. Meu devaneio é interrompido por mais gritos de desespero acompanhados de grunhidos de algo que já não era humano. Peguei o último ítem do meu arsenal: uma aljava com 20 flechas e uma caixa, na qual continham mais 50. Coloquei a aljava nas costas, passando a correia pelo peito. As demais flechas ficaram guardadas no case do arco.
Por fim me dei ao direito de incluir algumas futilidades na minha mala: Um óculos com lentes marrons redondo como as que John e Ozzy usavam no auge de suas carreiras e, por fim, um iPod com as musicas que eu costumava ouvir antes de tudo acontecer. Elas me lembrariam de casa e talvez me dessem alguma esperança de que tudo melhorasse ou, como fora descobrir mais tarde, me dariam inspiração para atirar em qualquer coisa que morresse e continuasse se mexendo.
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